FALL
(o cair das
folhas)
SAMUCA
2010
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MEU
CREPUSCULÁRIO
Os vinte acabam logo
Hoje sou zero
Poeta hermético,
Trago cura,
Levo carta
Sou mentiroso
Mil possibilidades
Quem sabe a própria mentira
Não se torne verdade?
De fato, tudo que fui
Até ontem foi feto
Brandi espada,
Brindei com taça,
Briguei por ouro
De braços abertos agora queimo,
Trago fogo
Este é meu crepusculário
Minha partida se aproxima
Tiro a máscara agora pra dizer: tenho
medo
De tudo o que vou perder,
De tudo o que vou ganhar
De tudo
Só espero no fim de tudo
Achar o Mundo
Um grande abraço
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FALL
(o cair das
folhas)
Passado o inverno,
Fui entender o outono
Aquele frio estranho,
Que não incomodava
A não ser pelo fato de não incomodar
Passivo,
Assisti (a)o cair das folhas
Ai, o desfolhar...
Páginas e mais páginas viradas
Mas é só tirando a roupa
Que a gente vê a beleza
Nua e crua
Cruel e pura
A árvore, os galhos,
A estrutura
Diz que ter o quarto desarrumado
É aprendizado
É treinamento de sobrevivência ao caos
É andar com o tanque vazio,
Só no cheiro
E isso, a princípio,
Pode ser desespero,
A beira do precipício
Mas, acima de tudo,
Bagunça é pretexto para recreação
E conhecer por inteiro
O si mesmo
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Ah, cidade...
Palavra cruzada
Cruzamentos
A cidade de repente
Se faz tão pequena
E eu
Conheço tanta gente
Mas sigo assim
Anônimo
Quero dizer, sem nome
Queria me chamar Gerônimo
Mas acho que não é bem isso
Traduzir sentimento
É negócio complicado
É que tá tudo tão estranho
Que eu nem arrisco um palpite
Quizás, quizás, quizás...
Descrevendo minha gagueira
Gagueja meu coração
(esse sim palpita)
Talvez assim consiga
Ah, cidade
Esse sol
Essa lucidez
Ah, cidade
Acidez
Se desse,
Eu doceria
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Ô Mari,
Ô marinheira,
Morando no navio
A saudade é sua companheira
E a gente não entende
Ô Mari,
Marinheira,
Só
Descasca batatas
E limpa o convés
Em vez de contar as horas
Os dias e semanas
Até que entre em outro porto
Partindo logo que tenha
Tudo à posto
Ô Mari,
Marinheira
Menina
Mas se se demora
A paixão te bate à porta
A aventura te chama
E uma lágrima mais contente
Te diz:
“É o mar quem você ama”
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ANOS 80
Anos
80 voltam à tona:
Faz
pornô
A
famosa cinquentona!
PAC
MEN
Mais
que ler Turma da Mônica,
Reviver
os oitenta
É
comer bolinhas
Ao
som de música eletrônica
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PARTIDA
Meus amigos,
É tão bom vê-los dando certo
Todos indo tão longe
Alguns, mesmo ficando perto
Os que vão,
Vão pra fora e pra dentro
Os que ficam,
Vejo tão ocupados
Não param mais quietos
Meus amigos,
É tão bom vê-los
Que sinto um enorme aperto
De saber que dentro
De pouco saberei
De meu destino
Meu destino
E saberei que se fico perto
Se fico dentro
Se fico pouco
Se fico mesmo
Ou se vou pra longe
Confuso
Não fico mais
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FOTOGRAFIA
Jovens, fugimos da lei
Da gravidade
Com lágrimas nos olhos de pseudo-intelectual,
Via das nuvens
As luzes da cidade
E pensava que era noite de Natal
E em cada etapa
De minha empreitada aeroportuária
Um guarda me parava
Me olhava torto
E encarando me duvidava a idade
E eu dizia:
Tenho 21 anos
(de sonho e de sangue...)
E examinando o 5x7 da fotografia
Estranhando o nome que não batia
Com o lugar de onde eu vinha
Mas trago de cabeça
Uma canção em MP3
Em que um não tão antigo compositor
cearense me dizia
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Que me ouve agora
Eu sou como você...
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O
SOL TAMBÉM ME QUEIMA
Também me ama
e tão bem me queira
me chama para longe
o sol também se queixa
manda ao matrocídio
(seria a língua materna?)
o sol derrete
minha cera
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Colorless green ideas
Sleep
furiously
blindly
seeing
everyday
the same
new epiphany
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Blue,
purple and pink
Every day the same picture,
The same blur
The train has left the station
A broken statue
A live statement of the sadness
Of the world
The unbearable truth expelled
Her from home
Because they preferred
The eyes wide shut
To believe
They were average
And Christian
So she danced
And a portrait she became
Feeding fantasies
Along the dances
Came the beat
And up and down she went
With each new promise
Of change
She moved again
And a cup of coffee saves the day
A fresh breeze comes in
The Autumn leaves
Nobody else in the room
I wonder what comes with the wind
She and I watched the sunset
Blue, purple and pink
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I saw a
bird flying hard in the rain
Carmen, o
Carmen,
Will you
each and every day
Die only
to be born again?
I saw the
bird,
I saw the
rain,
But,
Carmen,
Will we ever be the same?
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Era uma estrada dourada
De fábulas e sonhos
Sucessos e conquistas
Nesse plano elevado
Havia uma grande narrativa
O mundo,
Um grande cubo mágico
Pronto para ser organizado
Minha mente,
O grande arquiteto
Não mero narrador
Mas o próprio roteirista
Mas dessa estrada
Eu desci,
Ou fui descido
O oráculo,
Uma senhora negra
Fumando um cigarro
Veio e me disse
“por enquanto é suficiente
Agora você fica aqui embaixo”
E fiquei sem subir
Subalterno
Escureci
Esqueci o método
Fiquei louco, bêbado
E mendigo
Perdi família e amigos
Tive páginas e mais
Páginas arrancadas
Acho que estou de volta
À estrada mas tá tudo
Tão diferente
Sendo igual do mesmo jeito.
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Carmen,
Minha deusa pós-moderna
Você me libertou
Da prisão de meu desejo
Me despiu de ilusões
Eu, que era guarda,
Fiz da cela minha vida
Mas foi só atrás das grades
Que eu vi a beleza escondida
Hoje, fora-da-lei
Eu respiro aliviado
Vejo um campo limpo
Sem caminho
Sem destino
Mas destituído de rumo
Ando a andar em círculos
Só te procurando,
Cigana,
Quando na verdade
É você quem sempre me encontra
E cada dia com você
É descobrir que não é você quem eu
queria
E é você quem eu quero hoje.
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O FIM DO VERÃO
Como uma guitarra sem corda,
Uma cigarra que acorda
E vendo o verão finito
Em cantar não se incomoda
O flagelo do não feito
A dor do não dito
Me afoga
O entender, sempre tardio,
Me derruba e me torna
Um ser de menos possibilidade
Mas, com certeza,
Com um pouco mais de história
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Que fidelidade canina!
Meu celular
Pulou comigo na piscina
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Nada como o sorriso confiante
De quem não faz idéia
Do que se passa
De quem passeia saltitante
Embaixo da colméia
(ou de quem canta, triunfante,
Em homenagem
À avalanche)
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Minha agência
É buscar afinidades
Para superar diferenças
Minha agência
Reconhece erros,
Mas admite perdão
Partimos do princípio
De que esta estrada
É longa, dura e injusta
E como a União faz a força
E também faz açúcar
Sei que podemos
deixá-la mais doce,
ou deixá-la docemente
É a revolução de Eva Amaral e Juán
Aguirre
E é como tenho advocado há muito tempo
O perdão ao ladrão
E ao ladrão de guardanapo
Por fim,
Minha agência acolhe
Também quem não compartilha
Nossa filosofia:
Aceitamos ser errados
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Cigarro é muito massa!
É o maior lance!
O que sai chama fumaça
O que fica chama câncer
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A POESIA MUDOU
I
A poesia mudou
comigo
Com o mundo
Com tudo que era
sagrado e colorido
A poesia foi-se
por um tempo,
Deixando aquilo
Que era
incompreensível
Um pouco mais
bonito
Bonito.
Queria, acima de
tudo, ser bonito
Fazer parte da
beleza do mundo,
Nem que fosse
por escrito
Mas, como eu
disse,
A poesia mudou,
Ficou calada
E não era de se
estranhar,
Pois quando se
espera muito,
Desespera-se um
pouco
Ganha-se quase
nada
II
Passei a
procurar um padrão
Um pai que me
dissesse
Guarda, che bello!
Queria aprovação
Pôs-se, então,
Pedro
Diante do
portão,
Barrando o
indigno
Por verso pobre,
Rima ausente,
Rima barata,
Tema carente
Era, pois, necessário
Ser muito mais
que filho,
Era necessário
ser mais que o pródigo
Era preciso ser
o Messias
E assim não há
poema que agüente.
III
Muda,
A poesia decidiu
fazer o que podia:
Viveu em minha
mente,
Viveu a minha
vida
E foi assim que
mudei,
Fui pra muito
longe
Longe como nunca
estive antes
E sonhei
Minha vida foi
bonita
Como um poema
Sem grandes
pretensões
Vivi, também, o
amor mudo
Fui
despedançando aos poucos
Como uma
despedida,
E, sim, como uma
dança
Mas, acima de
tudo, caindo aos pedaços
Desconstruído ao
som de Carmen
À La Traviatta,
Wagner e bombas
da Segunda Guerra
Ao fundo
E,
principalmente,
O cair das
torres gêmeas.
IV
e dizem que o
pós-moderno
vem antes do
moderno
e é verdade e
não é
a princípio
celebrei a falta de sentido
o andar sem rumo
tão sonhado
quando entrei no
greyhound
a emancipação do
mendigo
o elogio à
loucura
mas chorei por
aquilo que não vi
[aquele frio
estranho
aquilo que só
pode ser entendido
no último
segundo
quanto não há
mais volta
quando no
aeroporto
a gente finge que
não se importa
Sonhos de
inverno, Minha Antonía
e a gente sente
falta mesmo
do livreto de
poemas
quando um poema
era a resposta do universo
a inocência de
William Blake
acho que fui o
mais moderno que podia
o que resta
agora?
V
Agência
significa
A gente tem que
fazer alguma coisa
Eu decidi
Que se tenho
mesmo que decidir
Que seja uma
coisa bonita
Sair da baleia
É falar de
dentro dela
Não faço idéia
do que seja certo
Porque certo é
certo toda hora
Com qualquer um
com quem converso
Faço então aquilo
que acho bonito
Se fumar é muito
feio,
Faço pose e
aceno
Brinco com o
isqueiro
E não penso no
pulmão
(mas o aumento
do preço...)
E se o fálico é
símbolo de regressão –
Carência ou
rebelião,
Penso que é
melhor
Que ter uma arma
na mão
Mas o que eu
queria dizer mesmo
É que a poesia
mudou
E quero estar
aberta a ela
Que ela possa me
ensinar
Que, mesmo muda,
Eu possa ouvi-la
cantar
E deixar que ela
me diga
O que é hoje
E, se Deus
quiser,
Acreditar
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